Histórico

 

Como tudo começou…

 

Agosto de 1937. Em um antigo casarão alugado na Alameda Barão de Piracicaba, número 670, no bairro de Campos Elíseos, em São Paulo, nascia o Lar das Crianças da Congregação Israelita Paulista (CIP). Fundado por Charlotte Hamburguer e Ida Hofmann, duas senhoras judias nascidas na Alemanha e que imigraram ao Brasil refugiadas do nazismo, a nova entidade tinha a missão de acolher os pequenos imigrantes e auxiliá-los na adaptação e inserção social à nova pátria.

Sede do Lar em 1946.Nos primeiros anos de atividades, o objetivo do Lar era abrigar as crianças enquanto seus familiares buscavam se estabelecer em uma nova morada, aprender o idioma e encontrar um trabalho, alguma ocupação profissional. Nesse início, a passagem de cada pequeno imigrante pela entidade era breve. Independentemente do tipo de acolhimento – internato ou externato – a decisão era tomada em virtude das condições mínimas de cada família, o acompanhamento não se estendia por muito tempo.

Com o passar dos anos, porém, o Lar das Crianças percebeu a necessidade e somou outras vertentes. À preocupação assistencial, juntou-se o foco educacional, e a passagem de cada criança passou a ser mais duradoura na entidade. Ali, depois do período escolar, recebiam aulas de português e eram incentivadas ao desenvolvimento intelectual, físico e artístico. Isso acontecia através das diversas atividades oferecidas, como ginástica, costura, tear, além de passeios e outros estímulos para que pudessem descobrir suas vocações e interesses próprios.

O trabalho era intenso e objetivava a preparação dos pequenos não apenas para a volta às famílias como também para que fossem independentes, com capacidade de superar desafios e obstáculos da vida, garantindo as melhores condições para um desenvolvimento saudável. Todo o carinho empregado nessa atuação fazia com que a cada ano o Lar fosse mais solicitado. Nos primeiros 12 anos de vida, 330 crianças tinham sido ali atendidas. O número era crescente e a ampliação da procura pelo apoio foi o fator que motivou a construção de um novo e importante capítulo na história da entidade.

 

Um novo Lar

 

O Lar ficou instalado no casarão da Alameda Barão de Piracicaba até 1949. Nos últimos anos, já no final da Segunda Guerra Mundial, a demanda não apenas crescia como variava. O público já não era mais constituído apenas por filhos de refugiados e sobreviventes do Holocausto, mas também por crianças de famílias já estabelecidas em São Paulo, após anos de imigração. Com mais freqüentadores, as acomodações da casa ficaram insuficientes para acolher a todos com qualidade e o desejo da CIP passou a ser, literalmente, um novo Lar.

Depois de incansável empenho e grande mobilização, em abril de 1947, o sonhou passou a se transformar em realidade, quando foi inaugurada a pedra fundamental do novo edifício, localizado no bairro Alto da Boa Vista, na região de Santo Amaro. Empresas, sócios e não sócios da Congregação se engajaram em uma verdadeira obra coletiva, fato marcante na história de sucesso do Lar. Até que no dia 19 de junho de 1949, na rua São Luiz, 1258 – que hoje leva o nome de Rua Comendador Elias Zarzur, 1254 – eram inauguradas as novas instalações do Lar das Crianças.

Atividades e brincadeiras em passeio nos anos 1970.O novo prédio simbolizava o tamanho da grandeza e importância que a entidade tinha para a CIP. Mais do que isso, permitia seguir o lindo trabalho desenvolvido, ampliando o número de atendimento de crianças. Com amplos espaços para as brincadeiras e corridas das crianças e com mais quartos para melhor acolhê-las, a nova casa havia sido projetada especialmente para atender às necessidades do Lar.

O trabalho, então, seguiu de modo intenso e dedicado. Enquanto os menores freqüentavam o Jardim de Infância na própria entidade, os mais velhos freqüentavam escolas judaicas ou instituições de ensino da região. Depois dos estudos, participavam das atividades que o Lar disponibilizava: bordado, costura, pintura, madeira, além de aulas de ginástica e de religião.

Nessa época, já entre os anos de 1951 e 1953, grande parte das crianças já não era de imigrantes e refugiadas da Alemanha. O Lar ganhava uma cara mais comunitária. Os casos ali atendidos não se tratavam mais de apoio provisório, mas de auxílio mais permanente, de crianças que vinham de lares quebrados e famílias desestruturadas, o que exigia um apoio ainda mais profundo. Durante essa década, a média anual de atendimento era de 84 crianças e, para cada uma, o Lar dedicava, integralmente, olhar especial.

 

Mais crianças, mais profissionais

 

No decorrer dos anos, houve uma nova mudança no perfil das pessoas que procuravam ajuda no Lar. Cada vez menos famílias com crianças judias batiam à porta. Como a casa já estava estruturada, pronta para receber quem necessitasse, o Lar passou a receber crianças de fora da comunidade, de toda a sociedade brasileira, prestando o mesmo atendimento. A partir de 2006, atendendo o Estatuto da Criança e do Adolescente, o regime de internato deixou de funcionar. O número de crianças, porém, ampliava ainda mais.

Com o maior número de crianças atendidas, aumentava também a responsabilidade do Lar no direcionamento e desenvolvimento de cada uma. Empenhada em ofertar o que houvesse de melhor para o futuro de cada pequeno ser que ali freqüentava, a partir dos anos 1990, a direção da entidade se preparou para implantar um modelo mais profissional de atendimento.

Nos anos seguintes, várias profissionais foram contratadas: fonoaudióloga, psicóloga, terapeuta familiar, assistente social, médica, além de uma coordenadora e um diretor pedagógico. Cada criança passou a receber atendimento ainda mais personalizado. A equipe discutia eventuais problemas em conjunto e cada profissional dava o seu parecer. Debatiam-se estratégias caso a caso e os procedimentos eram tomados após chegarem a uma conclusão multidisciplinar. Com uma equipe multiprofissional, era possível identificar dificuldades de cada criança precocemente e apontar, também de maneira rápida, suas respectivas soluções.

Tamanho comprometimento e dedicação prestados a cada criança acolhida pelo Lar trouxeram respeito e reconhecimento à entidade. Nos anos de 1997, 2000, 2004 e 2006, o Lar das Crianças recebeu o prêmio Bem Eficiente, da Kanitz Associados, sendo eleita por quatro vezes como uma das 50 entidades mais eficientes entre as instituições beneficentes do país. O prêmio, que se tornou referência na área de filantropia, foi um importante medidor do trabalho prestado pelo Lar. Mostrou que estava no caminho certo, em uma trajetória bela e de muito sucesso.

Hoje, passados 75 anos de sua fundação, o Lar das Crianças segue, sem medir esforços, no trabalho de formação de cidadãos conscientes, com condições de ingressar de forma produtiva no mercado de trabalho e de terem uma nova oportunidade, um futuro melhor.

 
 

Fonte: A Congregação Israelita dos Pequenos – Livro comemorativo aos 65 anos do Lar das Crianças da Congregação Israelita Paulista (CIP).